Um toque: segundo remate

Abril 9, 2007

Estava bem, ia morrer. Explicava-me em palavras que não conseguia ouvir. Não sei se por vontade inconsciente, se porque a morte já estava a arrumar a mesa da cirurgia daquela sossegada alma – começou por lhe cortar o pio. Havia toda uma tormentosa aura – penso que assim adjectivada apenas para mim – a devolver ao cenário uma angustiante languidez bíblica, uma luminosidade absurda, sem porto nem razão onde atracar.

Foi um sonho, bem sei. E é também agora do meu conhecimento que aquela luz, aquela empertigada força do sol que se impunha como se mais saudades não somassem relevância, correspondia às mais suadas das tardes, em plena EB 2/3 Dr. Flávio Gonçalves, no traçado para nordeste da Póvoa de Varzim, no campo de terra desmesurado, onde o infortúnio e a desalma já me rasgaram joelhos, testa e calças, cotovelos, ossos e um par de chatices lá por casa.

O que torna tudo mais inverosímil: quando conheci o Carlos (não lembro o apelido, talvez quando tiver a idade do Saramago e os seus truques de memória, quem sabe), ou seja, quando chegou à minha turma – tão dele quanto minha, claro –, eram horas para o 7º ano. Verdade que são desse período as mais solarengas das minhas memórias, mas verdade é também que por essa altura já éramos grandotes e o «respeitinho» já ofertava um estatuto apenas inteiramente abalável pela malta do 9º ano. Aos rapazes da minha turma ocorria, até, ter namoradas: é também da ordem da verdade que havia um grupinho de ‘bonitos’ extremamente requisitados pelas meninas da restante escola – confirme-se, sem fronteiras de formação académica de qualquer género. Quero com isto dizer: já não passeávamos o nosso afamado charme pelo campo de terra. Só em regime de excepção. Os campos de alcatrão eram bem mais apelativos – com as suas devidas marcações de terreno e maior estabilidade para as movimentações. Não sei qual dos dois era mais perigoso à integridade física de cada um de nós. Mas a questão nem era essa. E, penso, o velhinho campo de terra já nem existe, nove anos volvidos sobre a minha saída daquela escola.

(continua…)

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... é o blogue de crónicas coxeanas de Hugo Torres.

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