Um Toque: recarga ao segundo remate
O Carlos era acólito. E penso que rumou mesmo a um Seminário – pelo menos até arranjar namorada; ou sem menos, que uma coisa não implica inteiramente a outra e na realidade nunca me inteirei sobre o assunto. Era meu colega de secretária numa ou duas aulas, já não recordo com acuidade. Era um tipo porreiro e esforçado – hoje, não sei, mas é provável que assim continue –, não me dava nada mal com ele. Tinha um problema qualquer com um dos dentes da frente, que convenientemente andava a tratar, e razão pela qual era insistentemente gozado pela classe alta da turma. Sim, falamos do abstracto, absurdo e muitas vezes aleatório conceito de popularidade, vilmente instaurado entre as gentes de pé para as borbulhas. Como quase sempre pertenci à classe média-alta, dei por mim várias vezes a sucumbir, nos termos descritos imediatamente acima, às tentações dos que ocupavam o topo da hierarquia. Não sei se me arrependo. Há que ter em atenção a conjuntura! Sei, isso sim, que a miudagem consegue ser brutalmente cruel consigo mesma.
Mas é de um dia chuvoso – ou pelo menos demasiado nebuloso – a mais nítida memória que possuo do Carlos. Precisamente nos campos de alcatrão, num jogo de futebol que já não sei por qual das mais rocambolescas razões era implicativo para o ego. A partida, lembro, não corria mal. Contudo, na equipa adversária, o Carlos estava a sair-se bem melhor que eu, julgo até que me havia ultrapassado e barrado passagem umas quantas vezes. Aqui, pertencíamos ambos à mesma classe – a média-baixa. Como não éramos grande coisa com a bola nos pés, servia-nos o dorso mais desenvolvido que os dos outros para a posição de defesa central que se furtava, não raras vezes, às suas estritas funções com bola – já que árbitro era também algo de muito abstracto. E, mais a mais, os tempos de glória a guarda-redes já haviam ficado no 6º ano: havia que a todo o custo afirmar a melhor condição em relação ao outro para poder entrar na equipa principal frente às equipas das restantes turmas. Achei solução: uma sumptuosa e brutal placagem que o pôs no chão, em dores, enquanto me afastava sem a mais curta lufada de ar – que o embate me havia apertado até onde podia os dois pulmões – mas em passo de corrida, orgulhosamente. O Carlos ficou a olhar-me com um ar incrédulo, de porquê interrogado. Exibi uma qualquer juba de conquista e mais não se falou no assunto.
Agora, por que me morreu o Carlos nos sonhos, quase uma década depois, não faço a mais pequena das ideias. Mas, confesso, nunca a morte, tão perto, me foi tão pacífica. Talvez me tenham perdoado.
1 comment Abril 9, 2007
Um toque: segundo remate
Estava bem, ia morrer. Explicava-me em palavras que não conseguia ouvir. Não sei se por vontade inconsciente, se porque a morte já estava a arrumar a mesa da cirurgia daquela sossegada alma – começou por lhe cortar o pio. Havia toda uma tormentosa aura – penso que assim adjectivada apenas para mim – a devolver ao cenário uma angustiante languidez bíblica, uma luminosidade absurda, sem porto nem razão onde atracar.
Foi um sonho, bem sei. E é também agora do meu conhecimento que aquela luz, aquela empertigada força do sol que se impunha como se mais saudades não somassem relevância, correspondia às mais suadas das tardes, em plena EB 2/3 Dr. Flávio Gonçalves, no traçado para nordeste da Póvoa de Varzim, no campo de terra desmesurado, onde o infortúnio e a desalma já me rasgaram joelhos, testa e calças, cotovelos, ossos e um par de chatices lá por casa.
O que torna tudo mais inverosímil: quando conheci o Carlos (não lembro o apelido, talvez quando tiver a idade do Saramago e os seus truques de memória, quem sabe), ou seja, quando chegou à minha turma – tão dele quanto minha, claro –, eram horas para o 7º ano. Verdade que são desse período as mais solarengas das minhas memórias, mas verdade é também que por essa altura já éramos grandotes e o «respeitinho» já ofertava um estatuto apenas inteiramente abalável pela malta do 9º ano. Aos rapazes da minha turma ocorria, até, ter namoradas: é também da ordem da verdade que havia um grupinho de ‘bonitos’ extremamente requisitados pelas meninas da restante escola – confirme-se, sem fronteiras de formação académica de qualquer género. Quero com isto dizer: já não passeávamos o nosso afamado charme pelo campo de terra. Só em regime de excepção. Os campos de alcatrão eram bem mais apelativos – com as suas devidas marcações de terreno e maior estabilidade para as movimentações. Não sei qual dos dois era mais perigoso à integridade física de cada um de nós. Mas a questão nem era essa. E, penso, o velhinho campo de terra já nem existe, nove anos volvidos sobre a minha saída daquela escola.
(continua…)
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Crónica primeira
Levei o pé ao chão. Com pouco que me empurrasse, vesti a gravata da razão, detive-me, voltei ao carro. Fechei a porta e liguei o ar condicionado. Acendi calmamente o cigarro que o Fernando me plantou nas mãos há já anos e dediquei-me à filosofia possível sobre um jogador de pés tortos. Pior: de um jogador de futebol.
É sempre difícil – senão impossível – precisar berço e alvo das nossas primeiras paixões. Esta caneta não escreve diferente.
Para quem não necessita de um metro para se declarar em números de altura, o quintal lá de casa é imenso. (Mas que a cada Inverno ficava inexplicavelmente mais curto.) Não é simétrico: não é um rectângulo. Tem umas escadas que dão para o 1º andar, onde moram uns tios (que também ficaram mais curtos com os anos), mais um pequeno relevo na ponta mais afastada da casa e um anexo sem grande relevância, dois muros de cada lado e, compondo-se assim o tapete de cimento.Um par de jogos: o remate simples – ao comprimento, um de cada lado, um a chutar e outro a defender – e o ‘futebol de um toque’ – esquema complexo de tabelas, em que cada jogador, como é fácil notar, só pode tocar uma vez na bola até que o adversário o faça igualmente, e assim sucessivamente. E o que importa é esta última. Esta herança única da infância do meu pai, que manteve durante anos a destreza da matemática de bilhar nos pés, fazendo autênticos brilharetes nas arenas que eu e o meu primo agilmente montávamos.
O objectivo era introduzir uma pequena bola – de um tipo de borracha que não voltei a encontrar – numa caixa de fruta de boca aberta para o terreno de jogo. Foi o encanto mais esgotante que alguma vez me enlaçou. Baldes de suor até aos berros de jantar de minha mãe.
Escusado será dizer que o par de janelas que existiam em cada ponta do quintal sofreu gravemente por mais de uma dezena de vezes. E que isto não e um ponto final, que terá continuidade periódica.
2 comments Março 24, 2007